sábado, 25 de agosto de 2007

Seleção Existencial

Chegam 700 currículos à mesa do diretor, concorrendo a um importante cargo. O diretor diz à secretária:

- Pegue os 30 que estão no topo da pilha e chame-os para serem entrevistados. Jogue os restantes no picotador de papel.

A secretária, dando opinião não-solicitada – como é obrigação de toda secretária – interpõe:

- O senhor está louco? São 670 pessoas! Provavelmente os melhores estão lá!

Ao que, sabiamente, o diretor responde:

- Eu não preciso de gente sem sorte ao meu lado!

Paulo, coach


Quem ouviu a bobajada de que “ninguém motiva ninguém” nos últimos meses, levanta a mão? Pois é, mais um excelente exemplo de como conclusões cuidadosamente pesquisadas e elaboradas academicamente tornam-se chavões inúteis e irrefletidos no contexto organizacional.

Paulo, o apóstolo que escreveu mais ou menos um terço do novo testamento, tinha uma didática muito interessante ao lidar com grupos diversos de pessoas, que vou chamar de metodologia do “assuma sua responsabilidade”. Um exemplo explícito disto está na epístola aos Colossenses, no capítulo 3. Paulo instruí, por exemplo, os filhos a serem obedientes aos pais, e os pais a não causarem ira a seus filhos.

A cada grupo ele fala sobre sua própria responsabilidade na relação. E isso é genial por limitar a nossa tendência inescapável de ficar na defensiva e transferir a responsabilidade. Que é exatamente o problema dessa teoria de que ninguém motiva ninguém.

As pesquisas e estudos mais recentes apontam (e reforçam) que motivação é diretamente ligado a necessidade. Ou seja, determinada coisa só é motivadora se aquele indivíduo específico sentir, em algum nível, necessidade desta coisa.

Assim, um prato de lentilhas é extremamente motivador para quem morre de fome – mas bem pouco estimulante pra uma pessoa bem alimentada. Um executivo diante de cem reais: “isso é pro troco?”; Um estudante universitário diante de cem reais: “quem eu tenho que matar?”

Então, nesse sentido específico motivação é um fenômeno interno e pessoal, portanto, as pessoas seriam, prioritariamente, auto-motivadas (ou auto-DESmotivadas). No entanto, nossas motivações enquanto espécie (como já preconizava o obtuso do Maslow) são similares (comer, beber, dormir, trepar, segurança, afeto, auto-realização), além disso, como provam constantemente os marketeiros, necessidades podem ser criadas, ampliadas e inflacionadas.

Ou seja, se por um lado a motivação é pessoal, por outro ela pode ser catalisada.

Usando a didática de Paulo, cada profissional deveria focar-se na possibilidade e importância da auto-motivação. E cada líder/gerente/gestor deveria estar cônscio da necessidade, importância e forma de motivar aqueles sob seu “regime”.

A falta da didática paulina cria uma distorção grosseira, onde os liderados atribuem a desmotivação e o péssimo clima organizacional ao gestor, que não motiva; e o gestor, por sua vez, defende-se com o bom (e ainda não velho): “ninguém motiva ninguém, esse bando de vagabundo tem de se auto-motivar”.

Ninguém assume responsabilidades e a gestão de pessoas continua sendo só palavreado bonito.