domingo, 15 de julho de 2007

QWERTY


Se você está se perguntando o que seria qwerty, pare por um segundo e olhe pro seu teclado... a menos que você seja um nerd total, do tipo que estuda ciências da computação, deve ter acabado de perceber que QWERTY são as seis primeiras letras na seqüência de distribuição no teclado. Não sei se você já se perguntou a razão das letras estarem dispostas desta forma no teclado. A resposta, pasmem, é pra DIFICULTAR a digitação, DIMINUINDO a velocidade média do digitador.


Imagine que você está criando o primeiro teclado do mundo. Qual seria a primeira ordem que você pensaria pra distribuir as letras? Foi exatamente isso que os primeiros criadores de máquinas de escrever, salvo engano no século XIX, fizeram – distribuíram as letras no teclado das máquinas em ordem alfabética. Só que, com essa divisão, todas as letras mais usadas nas línguas neo-latinas (português, inglês, francês, etc) ficam agrupadas muito próximas, permitindo que os dedos mais fortes (o indicador e o pai-de-todos – também conhecido como “dedo-de-dar-dedo”) trabalhassem nessas letras.


Qualquer zé mane, nessa configuração alfabética, digitava muito mais rápido do que um digitador mediano com a configuração qwerty. O problema é que a datilografia em alta velocidade fazia com que os tipos enganchassem uns nos outros, interrompendo freqüentemente o trabalho. Assim o modelo qwerty foi pensado como uma solução, de forma que as teclas mais usadas fossem para a periferia do teclado deixando os dedos mais fracos responsáveis por acioná-las. A, S, E, M, por exemplo. Numa digitação profissional elas são acionadas pelo dedo anular ou pelo mindinho (também conhecido como “dedo-de-cobrador-de-ônibus-deixar-a-unha-grande-para-tirar-cera-do-ouvido”). E mesmo que você cate milho, procurar letra a letra na disposição qwerty é um processo mais lento do que em um teclado de distribuição alfabética.


Sempre que explode uma nova moda organizacional, fico fazendo o bolão pra ver quanto dura – até sumir, ser relançada com um novo nome, numa embalagem mais vistosa e fingindo ser uma coisa diferente. Talvez até use umas palavrinhas japonesas bonitinhas no meio pra dar aquele charme. O pior é que todo mundo tem que saber, ou fingir que sabe, cada nova moda ou novo livro definitivo da semana, pra não “estar desatualizado”. Sinto meus neurônios morrendo lentamente cada vez que penso em Monge e Queijo.


(Claro que lá no fundo eu invejo profundamente os Spencer, Cury, Taylor e Johnson da vida – sou doido pra repaginar umas idéias que existem a centenas de anos e apresentar como minhas, ficando rico e sendo pago pra falar superficialidades emocionantes em palestras de 300 conto por cabeça)


Uma das coisas úteis de todos esses modismos (e que logo se tornou inútil pela banalização, e pela superficialidade decorrente do se tornar banal) foi a noção resgatada de paradigma. E da necessidade de revê-los – oops, “quebrá-los”. Voltemos ao qwerty: com o advento dos computadores a razão de ser da distribuição qwerty deixou de existir, mas mantivemos a prática pela força do hábito. Algumas companhias tentaram fabricar teclados com distribuição alfabética mas, até onde sei, nenhuma conseguiu grande sucesso. Isso por que resistir à mudança (ai ai, mr. Johnson) está no cerne do nosso comportamento defensivo-acomodado. E aí é que as modas organizacionais ganham força – você pode mudar a linguagem, mudando muito pouco no seu comportamento. Às vezes parece que realmente acreditamos que falar diferente nos torna necessariamente diferentes. O “quebrar paradigmas” se espalhou por áreas tão diversas que está próximo de ser incorporado ao nosso senso comum, sem nenhum tipo de reflexão. Em algumas organizações, quebrar paradigmas tornou-se um paradigma. Algumas ações absurdamente estúpidas e sem sentido são implantadas tendo como única justificativa o fato de que “estamos sendo inovadores e quebrando paradgimas”.


Acho que entre escorregar para uma iconoclastia burra e estagnar na nossa zona de conforto suicida, deve-se começar a pensar nos hábitos e comportamentos organizacionais (“paradigmas”) questionando suas razões de ser. Se estas deixaram de existir ou de fazer sentido, jogue o hábito pela janela. Se elas ainda existem e fazem sentido no seu contexto, defenda o hábito/comportamento que elas sustentam com unhas e dentes contra os modismos organizacionais.


PS – continue freqüentando as palestras de 300 conto/cabeça. Um dia quero cobrar o mesmo sem ser incoerente ;)